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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Expedição Torres ao Chuí


 Dona Iole (ônibus de Porto Alegre para Capão da Canoa)
 Da esquerda para a direita: eu, Tita, Tarso, Val, Juliane
 Ponto de início da Expedição: Rio Mampituba

 Entre Torres e a Praia do Barco
 Família reunida na casa do primo Tarso e Juliane
 chegando na Plataforma de Atlântida
 algum lugar depois da praia de Atlântida
 1º acampamento: entre Tramandaí e Cidreira
 Atoleiros de areia na Praia de Dunas Altas - após Quintão
 Vila de Pescadores
 Casa soterrada por duna (vila de pescadores)
 Casa do Sr Ademir e dona Neusa (vila de pescadores)
 Senhor Ademir e dona Neusa
 Estrada que liga a vila de pescadores à RST-101

 banheiro do camping da Praia da Capilha
 Senhor Alceu e seu filho Roberto (Santa Vitória do Palmar)


 tomando um chimarrão na praia da Barra do Chuí
 Molhes da Barra do Chuí
 O amigo Júlio César (Churrascaria Portal da Barra) - Barra do Chuí
 Minha querida tia Alcora (Porto Alegre)
 Senhor Rubens (Janela do Mar Apart Hotel) - Barra do Chuí
 Janela do Mar Apart Hotel (Barra do Chuí)
 da esquerda para a direita: tia Alcora, Olga, tio Eni

 eu e minha querida prima Sayonara (Porto Alegre)

 DIÁRIO DE BORDO
 

1º dia: 11 de fevereiro de 2013
Percurso: Torres à Praia do Barco
Distância: 68 Km
Tempo pedalado: 5 horas e 10 minutos
Velocidade máxima: 23.7 Km/h
Velocidade média: 13.3 Km/h

Na noite de ontem montei a bicicleta, na casa do primo Paulo de Tarso e da sua esposa Juliane, que me receberam juntamente com minha tia Nelci (Tita) e a filha da minha prima Luonathar (Lu) a Valkíria (Val), na Rodoviária de Capão da Canoa-RS.
Depois de alguns ajustes finais na bike, nos dirigimos à cidade de Torres de onde eu iniciaria a Expedição “Torres ao Chuí”. Almoçamos no Cantinho do Pecador, um aconchegante restaurante às margens do Rio Mampituba que divide o estado de Santa Catarina do Rio Grande do Sul, e após uma sessão de fotos nos dirigimos à praia.
Depois da “foto oficial” no ponto de partida, me despedi da família e às 13:00 horas iniciei esta grande travessia pelo litoral gaúcho. A praia de Torres estava lotada de pessoas e fui devagar avançando com cuidado pois havia muitas crianças; o tempo estava ensolarado mas havia a possibilidade de chuva que logo após eu ter saído da cidade caiu com força amenizando o calor. Fiz poucas fotos neste primeiro dia pois a chuva me acompanhou por vários quilômetros. Foi uma tarde bem tranquila, uma pedalada que serviu para me mostrar como seriam os dias seguintes... Neste primeiro dia de Expedição utilizei apenas a bolsa de guidão, o restante da minha bagagem ficou na casa do primo Tarso, pois lá seria o meu primeiro pouso.

Cheguei no final da tarde na guarita de número 64, que fica exatamente em frente à rua em que meu primo mora, na Praia do Barco. A turma toda me esperava com ansiedade e alegres por me verem chegar bem.

Dei uma boa lavada na bicicleta e a lubrifiquei e logo em seguida fui tomar um bom banho. À noite meu primo fez um maravilhoso churrasco onde pude rever minha prima Neca que não via à vários anos, ela estava com seu marido o André, também foi ao churrasco a Sayonara e seu marido Beto com seu filho que também se chama Beto e com minha tia Nelci, minha querida Tita que veio de Florianópolis só para poder estar comigo nestes dois primeiros dias, isto foi muito especial, jamais vou esquecer este gesto desta tia que amo muito. Deixo registrado neste momento o importante apoio que minha família está me prestando, são todos maravilhosos... 

2º dia: 12 de fevereiro de 2013

Local: Praia do Barco (ao norte de Capão da Canoa) 

         O dia de hoje foi de descanso pela manhã e pela parte da tarde iniciei a preparar todo o equipamento em cima da bike e ela aos poucos começou a desaparecer embaixo de tanta bagagem... Ao final do dia estava quase tudo pronto, restando apenas algumas coisas de última hora. Jantei com o pessoal e à noite fizemos um “test-drive” em frente à casa do Tarso e da Juliane com a bicicleta carregada e batemos diversas fotos, foi muito bom poder ver estampado nos olhos de todos a admiração de como é a sensação de se pedalar em uma bicicleta carregada, todos arriscaram umas pedaladas, até a Tita resolveu experimentar...

         Já tarde, fomos dormir; meu coração estava um pouco pequeno dentro do peito, a ansiedade para que aquela noite passasse logo e que chegasse a manhã era muito forte!

3º dia: 13 de fevereiro de 2013

Percurso: Praia do Barco / 1º acampamento (3 Km antes de Cidreira):

Distância: 68.9 Km

Tempo pedalado: 4 horas e 59 minutos

Velocidade máxima: 25 Km/h

Velocidade média: 13.8 Km/h 

         Depois de tomar um bom café, me dirigi para a praia acompanhado pela turma que parece que queria ir junto... Não consegui me despedir da “Val” pois ela ainda estava dormindo; depois de dar um abraço na Tita, no Tarso e na Ju, apontei a roda da bicicleta para o sul e comecei a pedalar às 08:00 horas com um tempo muito bom e bastante calor; deu um friozinho no coração nesta hora pois eu sabia que daquele momento em diante eu teria o Senhor Deus e minha bicicleta como companhia nos próximos dez dias, mas este sentimento de deixar pessoas conhecidas para trás, logo deu lugar à uma paz muito profunda... Quando passei por Capão da Canoa comecei a lembrar de como nasceu a idéia de realizar esta expedição; em janeiro do ano passado quando estive em Capão, pedalando com aquela bicicleta bem antiga que era do meu avô e que hoje está guardada no “Rincão do Alegrete”, ali naquela manhã eu tomei a decisão e comecei a trabalhar neste projeto. Um projeto muito gostoso por se tratar do meu estado e o fato de realizar uma viagem pelas areias das praias o que o tornou um projeto desafiador e logo no início idealizei uma data: janeiro de 2013 e agora passando por aqui depois de um ano, concretizando este trabalho, não poderia existir outra palavra: emoção...

         Passando pela Plataforma da Praia de Atlântida, voltei no tempo me lembrando quando fazia este trajeto de Capão até a Plataforma, correndo de manhã bem cedo com meu tio Moacir (meu querido tio Moa).

         Passando pelas praias de Atlântida, Xangrilá, Imbé e Tramandaí tive um pouco de dificuldade para transpor este trecho pois a quantidade de pessoas nas areias era muito grande.

         Consegui chegar ao local do meu primeiro acampamento às 16:00 horas e foi muito bom poder escolher o ponto exato atrás das dunas e dar a sorte de no local existir uma lagoa de água doce formada pelo “arroio” (córrego), que deságua no mar naquele lugar.

         Ao cair a tarde eu estava tomando meu chimarrão com um céu colorido pelo pôr do sol, olhando para o mar e pensando na minha esposa e filhos que estavam bem longe, mas bem perto em pensamentos... A noite estava estrelada e com uma leve brisa vinda do oceano; depois de tomar um banho na lagoa, já com a barraca montada e toda a estrutura do meu acampamento, abri uma garrafa de vinho e cozinhei uma massa para o jantar e comemorei sozinho...          

4º dia: 14 de fevereiro de 2013

Percurso:

1º acampamento / Vila de pescadores (antes do naufrágio do navio Month Athos):
Distância: 73.66 Km
Tempo pedalado: 6 horas e 46 minutos

Velocidade máxima: 12 Km/h

Velocidade média: 10.9 Km/h 

          A noite foi tranquila e dormi muito bem. Acordei com o céu clareando; fui desmontando o acampamento e tomando meu café enquanto o sol nascia de dentro do oceano colorindo o céu em tons surpreendentes... Às 07:30 horas deixei o local do meu primeiro acampamento e comecei a pedalar pela praia ainda deserta, apenas com os pássaros como companhia.

         Após a Praia de Cidreira, antes do Balneário Pinhal, comecei a notar que a areia da praia começou a ficar um pouco mais fofa e comecei a sentir um pouco de dificuldade para pedalar pois os pneus da bicicleta atolavam na areia, mas os trechos de areia fofa eram esporádicos no início. Entre o Balneário Pinhal e a Praia de Quintão o ato de pedalar foi se transformando em algo simplesmente impossível. Quando cheguei ao Farol Berta na Praia de Dunas Altas às 13:20 horas eu estava avançando 1 Km a cada 30 minutos! Comecei a fazer uns cálculos de cabeça e percebi que não conseguiria chegar ao local aonde deveria montar o meu segundo acampamento. Eu já não conseguia mais pedalar, apenas “arrastar” literalmente a bicicleta pelos “atoleiros” de areia que se estendiam das dunas que tinham uns 10 metros de altura até o mar; cheguei a calcular a altura daquela areia fofa em mais ou menos 30 centímetros!! Na areia mais úmida próxima ao mar as rodas se enterravam.

         Na praia haviam poucas pessoas, com carros, bem distantes umas das outras, eram famílias que estavam pescando; conforme a tarde ia avançando as pessoas foram indo embora e em um determinado momento eu me vi completamente sozinho em uma praia deserta. Eram 19:20 horas, o sol já estava bem próximo do horizonte, os cursos de água doce que desaguavam no mar, que no início eram tão comuns, simplesmente desapareceram. Comecei a ficar muito preocupado realmente pois eu só tinha meia garrafa de água para beber. Então naquele momento, surgiu por detrás das dunas, à uns trezentos metros de distância à frente, dois vultos, duas pessoas que caminhavam em minha direção.

         Quando chegaram mais perto pude perceber que se tratava de dois pescadores, dois senhores já de idade. Naquele instante eu já não tinha mais forças para continuar... Um deles me perguntou para onde eu estava indo, eu respondi que estava indo para o Chuí, mas que já estava completamente esgotado e quase sem água, então um dos senhores me disse: “- Tu podes ficar em minha casa. À uns trezentos metros tem um arroio, existe ali uma pequena vila de pescadores, eu estou indo recolher uma rede com meu amigo e já estou voltando, tu pode me esperar por ali...”

         Agradeci muito e continuei empurrando a bike e agradecendo à Deus. Agora eu já tinha um lugar para passar a noite...

         Existe no local uma pequena vila de pescadores com umas oito ou dez casas e várias delas abandonadas sendo que duas já foram encobertas pelas grandes dunas que chegam a dez metros de altura!! O nome deste senhor que me deu abrigo nesta noite em uma casa ao lado da sua é Ademir e sua esposa se chama Neusa, um casal muito alegre e receptivo. Depois do senhor Ademir me mostrar o local e a casa abandonada em que eu iria passar a noite, me instalei e fui tomar um banho no arroio (córrego); na pequena vila que não tem nem nome, não existe energia elétrica, mas o senhor Ademir e dona Neusa possuem um pequeno gerador e quando caiu a noite estávamos assitindo o Jornal Nacional, tomando uma garrafa de vinho chileno e comendo uma deliciosa pizza feita pela dona Neusa no seu fogão à lenha!!!! Este momento da Expedição foi mágico, pois em um determinado momento na praia eu não tinha quase nada e de repente eu estava embaixo de um teto contando causos, confortavelmente instalado em um lugar que jamais esquecerei em toda a minha vida...

         Nesta noite, conversando com o senhor Ademir, ele me disse que as areias iriam continuar daquele jeito (fofas) e que se eu quisesse abandonar a praia e continuar pelo asfalto, eu poderia seguir margeando o arroio por uma estrada de areia até chegar na vila de Bacopari e mais alguns quilômetros eu chegaria na RST-101. Quando fui dormir, tomei a difícil decisão de abandonar a praia e continuar a expedição pelo asfalto... Não era o que eu tinha planejado; mas naquelas circunstâncias era o melhor a fazer.        

5º dia: 15 de fevereiro de 2013
Percurso: Vila de pescadores / Mostardas
Distância: 124.28 Km
Tempo pedalado: 8 horas e 42 minutos
Velocidade máxima: 24.4 Km/h
Velocidade média: 14.2 Km/h 

         Saí da vila de pescadores às 07:20 horas depois de tomar um café feito na hora pela dona Neusa. Me despedi do senhor Ademir e iniciei o percurso de 13,5 Km até a RST-101, margeando o estreito arroio o qual tem uma estrada de areia ao seu lado. Saí já empurrando a bicicleta pois era impossível pedalar por causa da areia muito solta e aos poucos fui deixando a vila para trás; já bem distante ainda pude vislumbrar o vulto daquele casal que me observava ao longe...

         Em um determinado momento em que a pequena estrada se bifurcou, segui pelo caminho mais marcado por pneus de carros e logo em seguida a estrada desapareceu por entre as grandes dunas, tive que largar a bicicleta e subir em uma das dunas para poder ver se avistava a estrada novamente, mas nada... Resolvi então retornar à bifurcação e seguir pelo outro caminho e desta vez consegui acertar... Este fato me fez pensar em quantas vezes na nossa vida temos que parar, subir uma duna para ver se enxergamos uma saída para um problema e em muitas ocasiões temos que retroceder e rumar por outro caminho, às vezes mais difícil mas que nos levará para onde realmente devemos chegar... Com esses pensamentos na minha cabeça fui seguindo por aquele caminho por entre as dunas onde a beleza e o silêncio são indescritíveis, enquanto uma garoa caía bem suave...

         Passei pela pequena vila de Bacopari às 10 horas; parei em uma padaria para fazer um lanche e repor a água e às 11 horas cheguei finalmente no asfalto. À partir deste ponto o rendimento foi muito bom, consegui manter uma velocidade de 18 Km/h, e fui passando por entre fazendas e silos onde são armazenados grãos, provavelmente soja e milho; o movimento de máquinas agrícolas é bem intenso nesta época do ano pois os fazendeiros estão na fase da colheita e é muito bacana poder ver de perto o trabalho do homem do campo. Choveu um pouco quando eu estava passando pela vila da Solidão e foi muito bom porque o calor estava muito forte. Cheguei na cidade de Mostardas às 17:30 horas e me hospedei na Pousada Pouso Alegre, uma das melhores da cidade, com uma diária de R$ 90,00 e um excelente café da manhã bem no centro da cidade. Fiquei hospedado duas noites aqui, pois acabei ficando um pouco adiantado no meu roteiro; visitei a Casa da Cultura para saber um pouco da história de como tudo começou em Mostardas que é muito conhecida por seus cobertores de lã de ovelha feitos à mão em teares antigos... A cidade foi colonizada por imigrantes açorianos e foi criada em 1738 o que lhe confere a idade de 275 anos! Possui uma população de 15.000 habitantes. Achei o movimento da cidade super tranquilo. Tive tempo para acessar a internet e me comunicar com a família. Este tempo parado na cidade de Mostardas, foi muito bom pois além de conhecer um pouco o lugar pude descansar bastante. 

7º dia: 17 de fevereiro de 2013
Percurso: Mostardas / Bojuru
Distância: 107.68 Km
Tempo pedalado: 4 horas e 52 minutos
Velocidade máxima: 35 Km/h
Velocidade média: 22.2 Km/h 

         Parti da cidade de Mostardas às 07:30 horas com bastante calor, o sol foi implacável até eu chegar em Bojuru, muito calor... Depois que passei pelo acesso à cidade de Tavares, alguns quilômetros adiante, passei por um motoqueiro com o pneu dianteiro furado, era já um senhor de idade e estava em uma situação bem difícil, pois ele não tinha estepe e no local não havia absolutamente nada de apoio. Parei e ele me pediu emprestada a bomba para ver se conseguia encher o pneu, mas não deu certo, estava realmente furado... Ele estava indo para São José do Norte, 129 Km adiante... Passei para ele duas garrafas de água mineral, pois nem água ele carregava; espero que ele tenha conseguido alguma carona...

         A paisagem em torno da estrada é composta em sua maioria por pinheiros e existem várias fazendas, que por aqui são conhecidas por “estâncias”, muitas delas ficam no fundo de invernadas, ou seja, a casa é protegida por pinheiros ou eucaliptos no fundo e nas laterais e existe uma área de pasto na frente da casa até chegar no asfalto; esta proteção feita com árvores serve para guardar a sede da fazenda dos fortes ventos e do frio do inverno, que nesta região, mais ao sul do estado, são muito intensos.

         O relevo no istmo que é banhado de um lado pela Lagoa dos Patos e do outro pelo Oceano Atlântico, é totalmente plano e com retas bem extensas; o vento tem se mantido Nordeste à uns 18 Km/h, o que quer dizer um vento pelo lado esquerdo e por trás; estes dois fatores aliados, fazem com que o rendimento da viagem seja muito bom.

         Cheguei na vila de Bojuru às 14:20 horas com o tempo fechando para chuva e com muito vento agora vindo do sul. Me hospedei na Pousada Lucas a melhor que tem no lugar ao preço de R$ 30,00 a diária sem café da manhã. Um senhor muito atencioso me recebeu na Pousada e me mostrou o quarto onde eu iria passar a noite; seu nome: Sr. Paulo, com 81 anos e trabalhando... Conversei um pouco com ele, que ficou admirado com a minha viagem. Ao cair a noite a pequena vila de Bojuru parecia uma cidade fantasma, ninguém nas ruas; fui jantar em um pequeno restaurante perto da pousada; sigo amanhã para São José do Norte onde farei a travessia da balsa para pernoitar na cidade de Rio Grande, a primeira capital gaúcha.. 

8º dia: 18 de fevereiro de 2013

Percurso: Bojuru / Rio Grande

Distância: 101.72 Km

Tempo pedalado: 6 horas e 52 minutos

Velocidade máxima: 21.6 Km/h

Velocidade média: 14.8 Km/h 

         Depois de tomar o café da manhã na padaria em frente à Pousada Lucas em Bojuru e me despedir do Sr Paulo, saí daquela vila às 07:10 horas com o tempo parcialmente nublado mas com um vento Sudoeste, ou seja, um vento contra fortíssimo que se manteve o dia inteiro; este vento foi o prenúncio de um mau tempo vindo do sul...

         Aos poucos fui deixando para trás as plantações de pinheiros e a vegetação foi cada vez mais mudando para uma mata nativa da região sul. O vento forte que me golpeava de frente, minava minhas forças à cada quilômetro... Depois de pedalar 100 Km até a entrada de São José do Norte para fazer a travessia da balsa para Rio Grande, na minha mente passavam uma quantidade enorme de pensamentos como: família, persistência, obstinação, meu pai, minha esposa, filhos, incerteza do local onde iria dormir naquela próxima noite, uma série de pensamentos que soprados por aqueles ventos fortes, tornaram este dia em um dia desafiador em que tive que dar tudo de mim em prol de um objetivo. Nesta viagem em especial, cada dia aparece um desafio novo; aqui a natureza dita as regras, eu sou simplesmente um ser humano que estou fazendo uma coisa tão comum para tantos: me locomover, ir adiante, eu e minha bicicleta, vencendo cada kilômetro desta estrada, sempre devagar, contemplativo, pensativo...

         A travessia da balsa durou 1 hora e 10 minutos e pude observar bem de perto a construção de uma plataforma da Petrobrás para extração de petróleo, pois a balsa passa bem perto dos navios onde estão sendo feitos estes trabalhos. Quando a balsa atracou em Rio Grande, comecei a procurar um hotel; quase todos estavam lotados devido à inúmeras empresas que estão prestando serviços na área do porto e depois de algum tempo procurando, encontrei um hotel bem simples com banheiro coletivo e uma diária de R$ 30,00 com um café da manhã composto de café com leite e pão com manteiga...

         Depois de instalado, fui a um super mercado repor suprimentos para o acampamento na Praia da Capilha, que será o meu próximo pouso. Fui dormir cedo pois o cansaço era muito forte... 

9º dia: 19 de fevereiro de 2013

Percurso: Rio Grande / Praia da Capilha (Vila do Taim)
Distância: 111.69 Km
Tempo pedalado: 6 horas e 48 minutos
Velocidade máxima: 37.5 Km/h
Velocidade média: 17.4 Km/h 

         Abandonei a cidade Rio Grande às 07:10 horas com um tempo chuvoso. Uma chuva fina mas constante que permaneceu o dia inteiro. Hoje pelo menos não tinha vento o que fez com que o rendimento fosse bem melhor. Não pude fazer nenhum registro fotográfico do dia de hoje, porque a chuva não permitiu, fiquei preocupado em molhar a máquina fotográfica e dar algum tipo de problema... Quando cheguei na placa que indica a entrada para Praia da Capilha, fiquei muito feliz pois estava encharcado da cabeça aos pés, mesmo usando roupas que são impermeáveis, depois de um dia inteiro pegando chuva, não existe roupa impermeável que segure tanta água...  Depois de percorrer 1 Km em uma estrada de areia em que eu e minha bicicleta íamos nos atolando e escorregando, cheguei à um restaurante e lanchonete na área do Camping, entrei naquele lugar “pingando água” e solicitei um pernoite na área ao preço de R$ 10,00; fiz um lanche e me dirigi para o local indicado por uma moça que trabalha no pequeno restaurante. Eu era o único corajoso que iria passar a noite acampado às margens da Lagoa Mirim naquela noite. Fiz uma avaliação da situação e do lugar e fui perguntar para a moça do restaurante se eu poderia utilizar a área do banheiro para me abrigar da chuva e ela me disse que não tinha nenhum problema. Minha bagagem está tão bem protegida, que quando me instalei no banheiro do camping, pude verificar que tudo estava bem seco dentro dos alforges. As capas de chuva da “Ararauna” são realmente eficientes! Então, pela primeira vez na minha vida eu me instalei e me preparei para passar a noite dentro do banheiro de um Camping que tinha energia elétrica e chuveiro quente!! Estava bem limpo, mas a quantidade de mosquitos e sapos era bem grande; armei minha barraca dentro do banheiro e ali passei a noite, uma noite bem fria com muito vento e chuva... Me agasalhei bem, colocando uma roupa seca e na hora em que preparei meu jantar, abri uma garrafa de vinho para poder relaxar e tentar descansar um pouco junto com todos aqueles bichos... Fiquei escutando o vento e imaginando a beleza da Lagoa Mirim que não pude nem chegar perto por causa do mau tempo, pois a distância da margem da Lagoa até o ponto em que eu estava era de 400 metros...

         Conheci na área do Camping um senhor chamado Luís que trabalha no lugar e me deu umas idéias boas para passar a noite. Fui dormir às 22:00 horas. 

10º dia: 20 de fevereiro de 2013

Percurso: Praia da Capilha (Vila do Taim) / Posto Alvorada (81 Km antes de Santa Vitória do Palmar)

Distância: 114.39 Km

Tempo pedalado: 7 horas e 13 minutos

Velocidade máxima: 22 Km/h

Velocidade média: 15.8 Km/h 

         A noite na Praia da Capilha foi algo bem diferente de todas as noites que eu já havia passado em toda a minha vida. Eu nunca passei uma noite tão horrível e cansativa com tantos bichos à minha volta (mosquitos, besouros, sapos, aranhas, etc...).

O dia amanheceu devagar com o tempo igual ao dia anterior: chuvoso, frio e com o vento Sudoeste ditando o ritmo da pedalada. Saí da área do acampamento bem cedo, às 06:40 horas, depois de ter tomado meu café e arrumado minha bagagem novamente em cima da bicicleta, que aliás está se comportando muito bem. Alguns kilômetros depois entrei na Reseva Ecológica do Banhado do Taim que está situada numa estreita faixa de terra entre o Oceano Atlântico e a Lagoa Mirim. Os banhados do Taim apresentam diversificados ecossistemas e estão representados por praias lagunares e marinhas, lagoas, pântanos, campos e campos de dunas. É um dos principais ecossistemas do Brasil. Foi muito especial atravessar a Reserva pedalando, poder observar os pássaros, o gado e as capivaras convivendo em harmonia. O acostamento na área da Reserva quase não existe e é inclinado para fora da pista o que tornou bem difícil e demorado transpor este trecho. Pedalando por entre aqueles pastos alagados, repletos de aves de várias espécies que sobrevoavam a estrada a todo instante, poder ver de perto o gado pastando naquele banhado, fiquei imaginando como são apartados e como é realizada toda a lida com os bichos, pois da maneira como ficam soltos naquela imensidão, parecem rebanhos selvagens...

Após a Reserva Ecológica do Taim parei em um posto de gasolina por quase duas horas esperando que o tempo melhorasse, eu estava totalmente encharcado e com muito frio, porque a chuva e o vento não paravam... Na lanchonete do posto tomei um café e pude me aquecer dentro daquele lugar, só percebia que o tempo continuava ruim quando a porta era aberta por alguém. Enquanto esperava obtive informações de algum lugar para passar a noite e o dono do restaurante me informou que a uns 40 Km à frente tinha um outro posto de gasolina ao lado de uma vila que ele “achava” que tinha uns quartos para viajantes como eu, e assim com esta incerteza de onde eu iria descansar ao final daquele dia, saí daquele lugar às 13:30 horas quando a chuva parou. Já bem cansado por estar pedalando no segundo dia com chuva e ter passado por duas noites mau dormidas, segui em ritmo bom mas sem forçar; o vento estava soprando pelo leste e me ajudou um pouco. Percorri 40 Km até chegar no Posto Alvorada, onde existe um restaurante e lanchonete e também quartos para pernoite!! A dona do restaurante chama-se dona Rosane. Fiz um lanche bem reforçado antes de me recolher ao meu quarto. Tomei um bom banho quente, coloquei uma roupa seca e estendi as molhadas para secarem um pouco. Enquanto escrevo neste diário, as árvores lá fora balançam muito com o vento. Espero que amanhã o tempo amanheça melhor... Tenho feito ligações e mandado mensagens pelo celular para o meu pessoal quando é possível... 

11º dia: 21 de fevereiro de 2013
Percurso: Posto Alvorada / Santa Vitória do Palmar
Distância: 81.27 Km
Tempo pedalado: 5 horas e 22 minutos
Velocidade máxima: 22 Km/h
Velocidade média: 15.2 Km/h        

Dentro do quarto onde passei a noite, existia uma goteira bem no meio do quarto que pingava dentro de uma enorme bacia de metal. Me acordei algumas vezes durante a noite achando que eu estava na chuva pois o barulho daquela goteira caindo naquela bacia, era impressionante!... Pelo menos a cama era bem macia e coloquei dois cobertores de lã para me aquecer. Após ter tomado um café na lanchonete, saí do Posto Alvorada às 08:00 horas com uma chuva fina e um vento moderado vindo de Sudoeste. Este é o terceiro dia que não vejo o sol. O rendimento do dia não foi muito bom pois o vento se intensificou e a chuva também. Os ventos que tenho pegado depois da cidade de Rio Grande, estão me fazendo lembrar dos ventos patagônicos que eu e meu irmão Emerson enfrentamos na Argentina e no Chile no final do ano de 2008, quando percorremos a estepe patagônica de Comodoro Rivadavia até a cidade de Ushuaia.

Estou atravessando por uma área conhecida no passado por “Campos Neutrais”; em 1777, portugueses e espanhois celebraram o tratado de Santo Ildefonso, onde estes trocavam a Colônia do Sacramento pelas Missões. Entre estes dois territórios ficou uma faixa de terra "sem dono". Essa zona (da Estação Ecológica do Taim ao município do Chuí) é onde, hoje, se encontra Santa Vitória do Palmar, que naquela época foi chamada de Campos Neutrais, fazendo analogia a campos neutros, ou seja, não pertencentes nem a espanhóis e nem a portugueses. Por esse motivo e pela extrema proximidade com o Uruguai concentravam-se muitos criminosos na região, conhecida na época como "terra sem lei". Mais tarde, as terras passaram a ter dono de acordo com o Tratado de Tordesilhas: os portugueses.

Cheguei em Santa Vitória do Palmar às 15:30 horas, muito cansado, todo molhado, mas feliz por estar conseguindo cumprir meu roteiro na íntegra e já estar na reta final desta viagem. Fiquei hospedado no Hotel Brasil, bem no centro da cidade. No início do ano de 1850 iniciou-se um povoado em torno de uma igreja que , 33 anos depois, passou a se chamar Santa Vitória do Palmar em homenagem a Santa Vitória, uma santa italiana. O termo “Palmar” foi dado em razão da grande quantidade de palmeiras existentes na região.

Conheci no hotel um senhor chamado Alceu e seu filho Roberto, ambos estavam hospedados ali à serviço na cidade. Depois de conversarmos um pouco sobre a minha viagem, fui convidado por eles para jantar em um restaurante próximo ao Hotel Brasil, chamado Restaurante do Gordo. Jantamos um delicioso bife à parmegiana.

Do quarto do hotel liguei para toda a família informando que a Expedição estava chegando ao fim. Fui dormir às 23:00 horas depois de ter escrito estas poucas linhas neste diário. 

12º dia: 22 de fevereiro de 2013
Percurso: Santa Vitória do Palmar / Barra do Chuí
Distância: 34.22 Km
Tempo pedalado: 3 horas e 26 minutos
Velocidade máxima: 29.8 Km/h
Velocidade média: 14.6 Km/h 

         Apontei o pneu dianteiro da minha bicicleta na direção sul e iniciei os trabalhos com os pedais às 08:30 horas depois de me despedir do senhor Alceu e do Roberto. O dia amanheceu ensolarado. Depois de três dias de chuva, Deus me presenteou no último dia da Expedição, com um sol maravilhoso! Este último dia da viagem foi muito tranquilo, pois eu estava em paz, com um tempo bom, sem vento contra, faltando poucos quilômetros para concluir esta travessia maravilhosa pelo litoral do meu estado. Cheguei no Chuí às 10:30 horas e já comprei minha passagem de ônibus de retorno para Porto Alegre.

         A estrada que liga a cidade do Chuí à Barra do Chuí tem 10 Km com um asfalto bom, mas com um acostamento muito estreito e inclinado para fora da estrada; foi um pouco difícil percorrer este trecho final, porque o trânsito de carros é bastante grande. Cheguei na Barra do Chuí na hora do almoço. Parei em uma churrascaria que fica bem na entrada da vila, chamada Churrascaria Portal da Barra, cujo dono é o Júlio César (meu xará), é muita coincidência... Depois de almoçar pedalei até a ponte que separa o Brasil do Uruguai para fazer a clássica foto... Depois fui para a areia da praia para chegar ao Janela do Mar Apart Hotel, onde ficarei hospedado durante cinco dias para conhecer esta “última ou primeira” cidade do nosso país. O proprietário do hotel é o senhor Rubens natural de Montevidéo.

         O Janela do Mar Apart Hotel conta com uma estrutura muito boa, com estacionamento privativo, piscinas, piscina térmica, sauna, área de churrasqueiras e um excelente café da manhã. Fui muito bem recebido e atendido pelo senhor Rubens e toda a sua equipe. Construído encima das dunas, com vista para o mar o torna um maravilhoso local para descanso junto à natureza.

         Todos os dias que fiquei na Barra do Chuí, almocei na Churrascaria Portal da Barra o melhor lugar, na minha opinião, para se fazer uma boa refeição; recebi de presente do amigo Júlio César, dono da churrascaria um CD de músicas uruguaias e retribuí o presente com um pacote de erva mate; agradeço ao amigo Júlio os bons momentos e as boas conversas que tivemos durante este período em que permaneci na Barra do Chuí. Sorte em suas novas empreitadas e que Deus ilumine você e sua família.        

13º dia: 23 de fevereiro de 2013
Percurso: Barra do Chuí / Forte de San Miguel / Barra do Chuí
Distância: 55.34 Km
Tempo pedalado: 3 horas e 14 minutos
Velocidade máxima: 33.5 Km/h
Velocidade média: 17.1 Km/h 

         Depois de ter tomado um bom café da manhã no hotel, fui visitar o Forte de San Miguel dentro do território Uruguaio. Fiz esta pedalada apenas com a bolsa de guidão, sem a bagagem, é bem diferente se pedalar sem a carga, a bike fica extremamente ágil e não se cansa muito.

         O Forte de San Miguel foi fundado em 17 de outubro de 1737 e tinha como função ser um posto avançado para monitorar as atividades espanholas na região da serra de São Miguel. A sua planta apresenta o formato de um polígono retangular em alvenaria de pedra com dois baluartes nos lados menores, separados por cortinas.

         O lugar é muito bonito e a cor amarelada das pedras do Forte, contrastam com o verde da natureza que o cerca...

         Saí do Forte às 11:00 horas, pedalei os 8 Km que separam o Forte da cidade do Chuí, atravessei a movimentada cidade onde se fundem os dois países Brasil e Uruguai separados apenas por uma calçada, e entrei na estrada que dá acesso à Barra do Chuí, já pensando no churrasco que me esperava na Churrascaria Portal da Barra...        

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

         Depois de percorrer 885 kilômetros e 810 metros desta grande travessia por praias, florestas de pinheiros, cidades pitorescas, áreas de preservação ambiental, campos de plantações, áreas de banhados, de ter tido a oportunidade de conhecer pessoas maravilhosas, que me ajudaram em momentos que eu me encontrava em situação muito difícil, como o senhor Ademir e a sua esposa dona Neusa, que foram duas criaturas que Deus colocou em meu caminho, que me deram um apoio tão importante e fundamental em um momento em que eu não via nenhuma saída...

         Registro neste momento a excepcional recepção que meu primo Paulo de Tarso e sua esposa Juliane me prestaram, me hospedando em sua casa com direito à churrasco com minhas primas Neca e Sayonara e suas famílias; à minha querida tia Nelci (Tita) e a “Val” que vieram de Florianópolis para ficarem comigo e acompanharem o início da Expedição Torres ao Chuí. Todos foram maravilhosos... Agradeço à minha mãe que se preocupou e torceu todo o tempo pelo sucesso desta empreitada. À minha esposa e filhos que estavam longe mas bem juntinho dentro do meu coração, o tempo inteiro.

         Obrigado Senhor Deus por ter me acompanhado e me protegido em todos os momentos, me abençoando e me guiando, me dando esperança e confiança, me auxiliando e me amparando à cada instante, sempre...

         Dedico esta viagem à todas as pessoas que tiveram uma parcela de contribuição para o sucesso desta Expedição, em especial minha querida tia Nelci. 

         Dedicada também à Amauri Pedroso Ribeiro. (in memorian). 

FIM DO DIÁRIO DE BORDO.



JÚLIO  CÉSAR  ANTUNES  RIBEIRO








2 comentários:

  1. Interessante sua travessia! Moro em SC (quase na divisa com RS, e fui de moto pela praia( alguns pontos tendo que atravessar pontes e pegar balsa), e confesso que não foi fácil. Imagino de bike! Boa sorte!

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    1. Obrigado pelo comentário Cristiano. Realmente foi bem difícil mas graças à Deus tudo deu certo. Grande abraço.

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